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Mozart com bola: um olhar sobre competências

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“Mozart com bola”: um olhar sobre competências

“Mozart com bola”: um olhar sobre competências

Como professor de Educação Suzuki na Primeira Infância (“Suzuki Early Childhood Education – SECE”), a primeira atividade da aula me encanta profundamente: professores, bebês de 0 a 3 anos de idade, mamães e papais, gestantes, cuidadores sentam em roda e, ao som de Eine Kleine Nachtmusik, de Wolfgang Amadeus Mozart, rolam uma bola entre si.

O professor utiliza um gesto e envia a bola, que é recebida por uma criança (ou adulto), que a envia para outra pessoa, e assim por diante. 

A criança observa, compreende, decide, escolhe, planeja, age, confere, concentra-se... com energia, timing e direcionamento. São altas funções executivas cerebrais (Diamond, 2013), importantes na vida e no aprendizado futuro de um instrumento ou voz, em que a criança observa, imita e improvisa (Gordon, 2003).

Ensinar e aprender por competências 

No fundo, estamos ensinando competências para a vida, que é o exato significado de educação, que possui por finalidade a “formação integral para a vida” (Zabala; Arnau, 2014, p. 52) ou “[...] o pleno desenvolvimento da personalidade humana” (ONU, 1948). 

A educação musical faz parte do sistema educacional, sendo considerada educação não formal (artes, línguas, esportes), ao lado da formal (escola) e da informal (família, amigos, comunidades):

Fonte: Zabala e Arnau (2014, p. 42).

Isso se dá por meio do aprendizado de competências gerais e específicas: 

Competência é a capacidade ou a habilidade para realizar tarefas ou atuar frente a situações diversas, de forma eficaz, em um determinado contexto, em que é necessário mobilizar atitudes, habilidades e conhecimentos ao mesmo tempo e de forma inter-relacionada (Zabala; Arnau, 2014, p. 25).

São competências gerais (Zabala; Arnau, 2014, p. 50):

  • Saber ser;

  • Saber conhecer/interpretar;

  • Saber fazer;

  • Saber conviver.

Os componentes dessas competências são uma atitude, conhecimento, habilidade, ou “conteúdo de aprendizagem” (Zabala; Arnau, 2014, p. 70), ou, simplesmente, competências específicas.

Competências de “Mozart com bola” 

Exemplifiquemos agora, algumas competências gerais e específicas que a atividade Mozart com bola pode desenvolver:

SABER SER

  • observadora, atenta, paciente e presente, desenvolvendo a capacidade de focar nos exemplos do professor e nas ações dos colegas, mantendo-se engajada durante toda a atividade. Perceptivas, atencionais (Posner; Rothbart, 2000);

  • autoconsciente de seu papel no grupo, autocontrolada em seus impulsos, proativa na tomada de iniciativa, emocionalmente equilibrada diante de frustrações, e resiliente ao persistir e aceitar erros como parte do aprendizado. Autorregulação (Shonkoff; Phillips, 2000);

  • confiante em si, em suas capacidades motoras, expressiva de sua estilo pessoal e personalidade única através do movimento, e consciente de seu valor, valorizando-se ao reconhecer conquistas e progressos. Autoestima, identidade  (Harter, 2012);

  • musical, sensível aos elementos sonoros, ritmicamente conectada ao pulso de Mozart, e corporalmente responsiva ao adaptar movimentos às características da música. Musicais internas (Gordon, 2003).

SABER CONHECER

  • seu corpo no espaço, as relações de distância com os colegas, os conceitos direcionais básicos, e os padrões de movimento da bola em suas trajetórias. Espacial (Piaget; Inhelder, 1967);

  • a si própria através da autoconsciência e autoconhecimento, os colegas ao reconhecer suas características e preferências, a dinâmica da atividade com suas regras implícitas e explícitas, e as hierarquias compreendendo o papel do professor como facilitador. Social (Wellman, 2018);

  • a música ao familiarizar-se com Eine Kleine Nachtmusik, as estruturas musicais como frases, seções e repetições, o andamento ou velocidade da música, e as dinâmicas com suas variações de intensidade sonora. Musical  (Trehub, 2003);

  • a bola em suas propriedades físicas (peso, textura, comportamento), a força e sua relação com a distância percorrida, as relações de causa e efeito através das consequências de suas ações, e conceitos físicos básicos como momentum, direção e velocidade. Físico, causal (Baillargeon, 2004);

  • as sequências na ordem temporal dos eventos, a duração de cada ação, o timing ou senso de momento apropriado para agir, e o ritmo ao internalizar padrões temporais da música. Temporal  (Friedman, 2007).

SABER FAZER

  • receber, parar e enviar a bola, imitar modelos e ajustar força e direção, desenvolvendo coordenação para receber, parar e enviar a bola, imitação de modelos e ajuste de força e direção. Motoras grossas (Gallahue; Ozmun; Goodway, 2012);

  • usar as mãos, posicionar dedos, graduar pressão e coordenar movimentos, desenvolvendo uso preciso das mãos e dos dedos para controle da bola, modulação da pegada e coordenação de movimentos simultâneos. Motoras finas (Case-Smith; O’Brien, 2015);

  • planejar movimento, escolher destinatário, calcular trajetória, antecipar resultados e corrigir em tempo real, antecipando e sequenciando ações, escolhendo conscientemente os destinatários e ajustando-se em tempo real. Planejamento motor (Ayres, 2005);

  • imitar com precisão reproduzindo fielmente modelos observados, adaptar modelos modificando movimentos conforme necessidade, improvisar criando variações pessoais do movimento básico, e experimentar testando diferentes abordagens motoras. Imitação, criação (Meltzoff; Moore, 1977);

  • sincronizar com música coordenando movimento com pulso musical, expressar musicalmente transmitindo caráter musical através do gesto, responder a mudanças adaptando movimento a variações musicais, e manter continuidade sustentando movimento durante toda a música. Musicais aplicadas (Dalcroze, 1921).

SABER CONVIVER

  • ser colaborativa contribuindo positivamente para o grupo, ser solidária demonstrando preocupação com o bem-estar dos outros, não monopolizar compartilhando oportunidades de participação, incluir facilitando participação de todos os colegas, e perceber quem participou menos desenvolvendo consciência social distributiva. Participação social (Vygotsky, 1978);

  • saber comunicar intenções expressando claramente para quem enviará a bola, interpretar sinais compreendendo comunicação não-verbal dos outros, responder adequadamente reagindo apropriadamente às ações dos colegas, e estabelecer contato visual usando o olhar como forma de comunicação. Comunicação social  (Tomasello, 2008);

  • saber respeitar turnos aguardando momento apropriado para participar, ceder espaço permitindo que outros tenham protagonismo, mediar conflitos lidando construtivamente com disputas pela bola, e negociar encontrando soluções quando há divergências. Regulação social (Eisenberg; Spinrad; Eggum, 2010);

  • saber perceber emoções reconhecendo estados emocionais dos colegas, responder empaticamente agindo considerando sentimentos dos outros, consolar oferecendo apoio quando alguém se frustra, e celebrar compartilhando alegria nos sucessos dos colegas. Empáticas (Hoffman, 2000);

  • saber liderar quando apropriado, seguir quando adequado, facilitar participação e modelar comportamento, liderando ou seguindo conforme necessário, facilitando a participação e servindo de modelo para comportamentos positivos em grupo. Liderança, seguimento (Rubin; Bukowski; Parker, 2006);

  • saber respeitar diversidade, valorizar tradições, adaptar-se e preservar harmonia, respeitando os diversos estilos e tradições, adaptando-se aos contextos e mantendo a harmonia do grupo. Culturais (Rogoff, 2003).

A ideia não é submeter os alunos a “avaliações” ou mesmo elocubrar expectativas sobre o desenvolvimento, como costuma ocorrer no ensino formal. A simples ideia de iluminar uma parte do caminho das famílias e se ter consciência das competências que estão sendo desenvolvidas mostra uma pequena faceta do valor que o programa SECE entrega.

Importante lembrar que pais e professores também desenvolvem competências. Os pais participam da aula e são responsáveis pelo ambiente que criam em casa, na escola e na comunidade. Professores também desenvolvem competências e as aprimoram em contínuo aprendizado.

Conclusão

Ao observar essa ampla gama de competências sendo desenvolvidas simultaneamente, fico impressionado com a genialidade pedagógica implícita na atividade “Mozart com bola”, revelando-se um momento incrível de desenvolvimento humano integral, pavimentando o aprendizado futuro de um instrumento ou voz.

Nossa responsabilidade vai além do ensino musical de excelência: somos facilitadores do desenvolvimento de seres humanos completos, capazes de atuar com competência e sensibilidade num mundo complexo, formando pessoas musicais íntegras e competentes para enfrentar os desafios da vida com beleza, sensibilidade e sabedoria.

Bibliografia

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Baillargeon, Renée. 2004. “Infants’ Reasoning about Hidden Objects: Evidence for Event-General and Event-Specific Expectations.” Developmental Science 7 (4): 391–424.

Case-Smith, Jane, e Jane Clifford O’Brien, eds. 2015. Occupational Therapy for Children and Adolescents. 7th ed. Elsevier.

Dalcroze, Émile Jaques. 1921. Rhythm, Music and Education. Traduzido por Harold F. Rubinstein. Riverside Press.

Diamond, Adele. 2013. “Executive Functions.” Annual Review of Psychology 64: 135–68.

Eisenberg, Nancy, Tracy L. Spinrad, e Natalie D. Eggum. 2010. “Emotion-Related Self-Regulation and Its Relation to Children’s Maladjustment.” Annual Review of Clinical Psychology 6: 495–525.

Friedman, William J. 2007. “The Development of Temporal Metamemory.” Child Development 78 (5): 1472–91.

Gallahue, David L., John C. Ozmun, e Jacqueline D. Goodway. 2012. Understanding Motor Development: Infants, Children, Adolescents, Adults. 7th ed. McGraw-Hill.

Gordon, Edwin E. 2003. A Music Learning Theory for Newborn and Young Children. GIA Publications.

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Meltzoff, Andrew N., e M. Keith Moore. 1977. “Imitation of Facial and Manual Gestures by Human Neonates.” Science 198 (4312): 75–78.

Organização das Nações Unidas (ONU). 1948. Declaração Universal dos Direitos Humanos. Acessado em 24 de novembro de 2023. https://www.unicef.org/brazil/declaracao-universal-dos-direitos-humanos.

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Wellman, Henry M. 2018. “Theory of Mind: The State of the Art.” European Journal of Developmental Psychology 15 (6): 728–55.

Zabala, Antoni, e Laia Arnau. 2014. Como aprender e ensinar competências. Artmed.

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